Junho, 25. Sexta-Feira.
Talvez cães treinados achem meu corpo alguns meses após eu ter morrido de tédio.


-> 19:02h
   Minha aula foi uma droga.
   Foi horrorosa. E horrível.
   Foi "horrorível".

   Apesar de eu ter uma imensa admiração pela - ainda bem conservada - sanidade mental, a professora literalmente cuspiu a matéria nova na minha casa.
   Não é só anti-higiênico.
   Foi praticamente um beijo francês por tabela.

-> 19:05h
   Procurando no google se existe alguma modalidade de "abuso salival" denunciável na delegacia da mulher. Quero indiciar a professora. Tenho testemunhas.

-> 19:45h
   Levei todo esse tempo para levantar da minha cama, olhar o calendário atrás da porta da cozinha e voltar para a cama com a confirmação da minha terrível suspeita: é sexta-feira.
   Não consigo entender como uma pessoal legal como eu não tem nada pra fazer numa sexta-feira.

   Espera, eu devo ter olhado errado no calendário. Hoje não deve ser sexta-feira.
   Vou olhar novamente.

-> 19:49h
   Sim, é sexta-feira.
   Droga.

-> 19:52h
   Vou olhar só mais uma vez.

-> 19:55h
   Sim. Incontestavelmente é sexta-feira.
   Preciso de ajuda.
Junho, 24. Quinta-feira.
Acho que vou morrer de tédio e ninguém vai notar.


-> 15:32h
   Estou aqui em casa. Sozinha. Com a TV ligada no SBT.
   No cúmulo do meu tédio, comecei a olhar a nova novela mexicana.
   Triste, nunca pensei que pudesse chegar a esse ponto.

   Hoje é um dia triste.
   A semana está sendo triste.
   Quintas-feiras, em geral, são tristes.

   Eu tenho uma pequena teoria sobre as quintas-feiras. Talvez o mundo se encha de sentimentos melancólicos porque a quinta-feira é um acontecimento que vem antes da sexta-feira (até aqui, brilhante) e a sexta-feira é o dia internacional do sem nada pra fazer.
   O que passa a ser mais triste ainda, pois se eu não tenho o que fazer numa sexta-feira, eu devo ser muito desagradável.
   Ninguém me ama.
   Ninguém me quer.
   Ninguém que quer numa sexta-feira.
   Pensando bem, nem numa quinta.

   Se o mundo interio entra num estado de baixo astral total na quinta, é porque há muitas pessoas neste mesmo planeta que não têm o que fazer na sexta também! Que ótimo!
   É bom descobrir que não se sofre sozinha.
   Mesmo sabendo que a pessoa mais perto de mim que possa estar sofrendo de melancolia-de-quinta-feira-pré-sexta-feira esteja a milhares de quilômetros de distância, morando num iglu.

-> 15:38h
   Viva! O telefone! É pra mim, é pra mim, é pra mim!!

-> 15:39h
   Telemarketing. Hunf!
Ano de 2004
Junho, 22. Terça-feira.
Temperatura Agradável

-> 18:37h
   Quase não posso acreditar que achei esse diário. Pensei que ele estava perdido para sempre nos cantos sombrios do meu armário de madeira. Deixe-me atualizar as coisas.
   Hum...destes últimos três meses pra cá vem acontecido bastante coisas, até.
   Debate na escola. Pena de morte. Fiquei com os que eram contra, por acidente, por ter dormido na hora de separarem os grupos. É muito difícil ser contra a pena de morte quando todos os seus colegas estão do outro lado da sala tentando acabar com a vida do pobre serial killer condenado. Não que eu defenda os serial killer. Mas se eu chego a escrever minha tese sobre a eficiência das punições medievais chinesas provavelmente seria processada pela ONU. Enfim, perdi o debate.

   Meu cãozinho Tobi morreu.

   E eu descobri, após infindáveis pesquisas, inúmeras experiências e intermináveis entrevistas com o público de que talvez haja uma chance - remota e passageira - de que eu esteja a fim do Jeff.
   Quer dizer...eu não concordo de todo. Estar "afim" soa com se eu sonhasse com infinitas possibilidades com ele. O que eu não faço.
   Ainda.